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Folha Dirigida, 17/10
Um mercado promissor
Por Tatiana Amaral
Quem nunca se imaginou em uma cena de filme, se emocionou, sentiu medo, riu ou até mesmo teve raiva de algum personagem? Afinal, por que o cinema encanta tanta gente há mais de um século? O que é preciso para se fazer Cinema? São tantas perguntas que envolvem o glamour da sétima arte que há um aumento do interesse dos jovens em se tornar cineastas. Segundo a estudante de cinema Glória Cardoso, para estudar Cinema deve-se ter amor a arte e ser perseverante. "Para fazer cinema é preciso ter paixão e persistência. É uma profissão como outra qualquer, só que ela mexe com o imaginário e as emoções das pessoas, por isso que o amor a arte é tão importante. O resultado é recompensador", comenta. O estudante de artes cênicas Diego Esteves, completa. "Para fazer Cinema é preciso ter disposição para estudar e entender todo o processo de produção. Além do mais, é preciso ter paciência e coragem para experimentar e colocar seus projetos para execução", aponta.
Incentivo público igual a interesse pela arte
De acordo com o ministro da Cultura, Juca Ferreira, essa é uma carreira promissora e o governo oferece recursos para que novos cineastas sejam inseridos no mercado de trabalho. "O número de profissionais de cinema que se forma no Brasil é muito importante para nós. O governo está com uma política de abrir recursos e os serviços do Ministério da Cultura para todos os cineastas independentes, considerando o seu grau de experiência. Essa medida é uma forma de incentivo à cultura, além de que a área audiovisual emprega bastante", afirma. O secretário de audiovisual do Ministério da Cultura, Silvio Da-Rim, contou - no debate ocorrido no Rio Seminars 2008, evento do Festival de Cinema do Rio - que o processo de retomada de produção do cinema brasileiro ocorreu há pelo menos 16 anos. "Esse apoio se deve quase que exclusivamente por um conjunto de incentivos fiscais, formando uma política muito generosa em termos de volume alocados de produção", defende.
Além das leis de incentivo, outra forma de abrir novos mercados e agregar valores técnicos são as co-produções. O diretor presidente da Agência Nacional do Cinema (Ancine), Manoel Rangel, comenta que é mais fácil distribuir um filme brasileiro no exterior se tiver um parceiro: o co-produtor. "A co-produção potencializa a abertura de novos mercados", explica. De acordo com o ministro Juca Ferreira a co-produção possibilita um aumento na produção e também na estabilidade dos empregos. "Quantos mais filmes formos capazes de fazer, mais infra-estrutura e mais investimentos teremos e, com isso, capacitaremos o nosso cinema", espera.
Com o mercado cada vez mais promissor, o interesse dos jovens vem aumentando gradativamente. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, realizada em 2006 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), demonstrou que havia cerca de 4,2 milhões de pessoas ocupadas na área cultural (entre proprietários, assalariados e por conta própria), sendo a maior parte por jovens. A coordenadora e realizadora de curtas metragens do núcleo de cinema Nós do Morro, Luciana Bezerra, acrescenta que o mercado de trabalho no cinema é promissor, porém exige muito do profissional. "Transformar cinema como profissão para ganhar a vida significa investir nela, como na maioria das outras profissões", lembra.
Maior incentivo à cultura é o público
Não adianta ter apoio do governo e pessoas interessadas em trabalhar em cinema se não houver público. Por isso, é preciso também criar condições para que aumente a procura por filmes nacionais, já que 90% do que é veiculado no mundo do conteúdo audiovisual é americano. "O Brasil tem um papel importante na América Latina e hoje temos uma grande possibilidade de diálogo com o mercado europeu que vem viabilizando a ampliação econômica da nossa economia audiovisual", afirma o ministro da Cultura. Porém, Luciana Bezerra acrescenta que além da falta de público, deve haver interesse maior das distribuidoras e dos proprietários de salas de cinema. "Temos pessoas que querem ver os nossos filmes, mas falta interesse das distribuidoras e dos proprietários de salas de cinema o compromisso de promover as produções nacionais," argumenta. O estudante de jornalismo Ricardo Machado acredita que "as grandes salas de cinema ainda se interessam mais pelos filmes norte-americanos do que por obras nacionais que ficam geralmente em circuitos restrito", lamenta.
Com as políticas de incentivo a arte, apoiadas pelo governo federal nessas últimas duas décadas, houve um aumento significativo de produção de filmes nacionais. O cineasta e presidente da organização social Cinema Nosso, Luis Nascimento, afirma que o aumento da produção do cinema brasileiro se deve às leis de incentivo a cultura, proporcionando uma produção cada vez mais nacional. "O cinema cresceu com as políticas culturais, principalmente nos últimos seis anos, em que vemos um número bem significativo de produções brasileiras, que não vêm somente dos eixos Rio de Janeiro e São Paulo", explica.
O diretor presidente da Ancine, Manoel Rangel, comenta que o esforço da agência é alavancar a produção e, ao mesmo tempo, o mercado de consumo por obras audiovisuais brasileiras. "Havendo esse aumento, ocorrerá, conseqüentemente, um aumento pelo interesse dos jovens em trabalhar na área cinematográfica e, com isso, ofertas maiores de emprego", explica. À medida que as indústrias cinematográficos se firmam, se mostram dinâmicas e capazes de gerar riquezas e empregos, mais jovens terão o interesse de se dedicar a essa indústria. O cinema possui um alto valor agregado que gera empregos de alta qualificação e difunde a cultura brasileira para o mundo.
Para o estudante de jornalismo Ricardo Machado, o cinema é uma paixão que o "persegue" desde jovem e, por isso, ele pretende se especializar na área. "A minha paixão de cinéfilo acabou se tornando um trabalho. Fiquei mais de dois anos trabalhando na produtora da UniverCidade e consegui um emprego no Festival do Rio. O mercado de cinema é promissor para qualquer um que esteja disposto a arregaçar as mangas e trabalhar", enfatiza.
O crescimento da produção cinematográfica e o aumento de bilheterias provam o desenvolvimento do cinema brasileiro e a possibilidade conquista do mercado mundial. O protagonista do filme Última Parada 174, Michel Gomes, afirma que com a popularização das escolas de cinema, como a Central Única das Favelas, na Cidade de Deus; Nós do Morro, no Vidigal e o Cinema Nosso, no centro da cidade do Rio de Janeiro, crescerá o interesse das pessoas em trabalhar em cinema. "Eu percebo esse interesse com meus amigos, vizinhos e pessoas nas ruas. Eles me param e perguntam como eu consegui entrar no cinema, querem saber como é trabalhar no ramo e pedem ajuda para indicá-los para fazer um algum trabalho, afirma.
Ilusões quanto a a área profissional em Cinema
Os jovens que têm interesse em trabalhar na sétima arte não devem ter a ilusão que serão cineastas ao sair da faculdade. Muitos passarão por um longo caminho até alcançar o reconhecimento. Mas, a direção a ser seguida é igual a de qualquer outra profissão. O diretor-secretário do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria
Cinematográfica do Estado de São Paulo (Sindice) alerta que existem diversas funções no cinema, além do cineasta. "O que sempre houve foi uma glamourização da atividade, o que leva os jovens a acharem que poderão se tornar 'gênios' do cinema. Os estudantes que se formam nas universidades sonham em ser diretores, porém existem outras 54 funções a serem exercidas", explica.
A estudante de cinema Thalita Queirós confessa que ao entrar na faculdade pensou que seria uma diretora famosa, mas ao descobrir a amplitude do mercado de cinema ficou encantada com todas as atividades. "Na verdade, o que acontece com 60% das pessoas que entram na faculdade de cinema é que pensam que serão diretores. Mas os professores fazem questão de frisar para os alunos que eles irão percorrer um longo caminho. Por isso não recuse um emprego como assistente de fotografia que um dia você pode se tornar um cineasta famoso", revela.
Novas mídias em favor da sétima arte
Outra forma de abrir o mercado de trabalho para o cinema é perceber que ele não é feito somente de longas-metragens. Existem outras modalidades, como curtas-metragem, documentários, animações e vídeos independentes. O cineasta Luis Nascimento revela que o cinema está caminhando para o domínio das novas mídias. "Se compararmos a bilheteria de um longa-metragem brasileiro de sucesso atualmente, muitas vezes o público não equivaleria ao de um vídeo de acesso médio no You Tube", confessa. O ator Michel Gomes completa que as novas tecnologias são aliadas para os novos profissionais, pois estas ferramentas de produção audiovisual devem ser exploradas em filmes e curtas alternativos e de baixo custo. "Essas novas mídias permitem a entrada de gente jovem, de novos diretores, atores, fotógrafos, que podem ousar sem o peso de filmar com muito dinheiro, capturando em vídeo e muita criatividade. Mais tarde estas pessoas vão ganhando espaço, experiência e possibilidade de se estabilizarem na carreira",
esclarece.
Por isso, todo tipo de experiência é válida. O mercado de trabalho na área cinematográfica é extenso e promissor. Filmes já foram indicados ao Oscar, uma das maiores premiações do cinema mundial. Segundo o estudante de jornalismo Ricardo Machado, o mercado é propício para quem tem talento, quem corre atrás, quem persiste e realmente quer fazer cinema, seja ele de animação, documentário, curta metragem ou longa.
O cineasta Luiz Nascimento conclui que os jovens devem estar antenados a todos os processos que envolvem a produção de um filme, desde as políticas para o audiovisual até a finalização e distribuição. "Não podemos sentar e esperar que boas idéias venham até nossas mesas ou cabeças. Temos que buscar idéia e viabilizar a produção delas. Acho que este é o perfil do realizador de cinema neste novo mercado", aconselha aos futuros cineastas.
