You are hereKátia Lund participa de primeiro filme da Produtora-Escola do Cinema Nosso
Kátia Lund participa de primeiro filme da Produtora-Escola do Cinema Nosso
Um aprendizado intenso. Foi assim que os participantes da Produtora-Escola definiram a experiência que tiveram nos últimos dias 03, 04 e 05 de maio, quando aconteceram as filmagens de “Feliz Páscoa”. Esse é o primeiro curta-metragem realizado dentro desse projeto e contou com a participação da diretora Kátia Lund, que, além de ser uma das fundadoras do Cinema Nosso, co-dirigiu "Notícias de uma Guerra Particular" (com João Moreira Salles) e "Cidade de Deus" (com Fernando Meirelles) e dirigiu um episódio de "Crianças Invisíveis", entre uma série de outras produções.
A Produtora-Escola atua em duas áreas: cinema e cinema de animação. Patrocinada pela Art Action, é o nível mais avançado da Escola Audiovisual Cinema Nosso e está no seu primeiro ano. Nela, alunos selecionados dos cursos regulares têm um contato mais específico com profissionais, vivenciando experiências próximas às do mercado de trabalho, na produção de filmes institucionais, comerciais ou autorais.
A ideia inicial de “Feliz Páscoa” surgiu no início das aulas da Produtora-Escola no mês de março deste ano, quando os alunos receberam diversos argumentos de filmes para analisar, dentre os quais alguns sobre tráfico e consumo de drogas no Rio de Janeiro. “Não queríamos fazer um filme que caísse num lugar comum, como os ambientados em favelas”, conta André Tavares, de 20 anos, diretor do curta-metragem. Surgiu, então, a história de uma família de classe média alta, que trafica drogas sintéticas dentro de ovos de Páscoa. Num incidente, a filha acaba consumindo um comprimido da droga, causando sérios transtornos para a família. O roteiro foi escrito pelo diretor e por Raquel Beatriz, também da Produtora-Escola.
Durante as filmagens, os participantes tiveram o luxuoso auxílio da diretora Kátia Lund. Ela esteve no set como colaboradora de direção do filme, supervisionando o trabalho de todos e dando dicas aos cineastas iniciantes. “A experiência da Kátia ajudou a resolver tudo. Toda a correria fez com que ela nos explicasse a necessidade de focar nossos objetivos. Então, conseguimos aparar muitas coisas que eram desnecessárias”, explica André. Segundo Diogo Mirandela, de 18 anos, que atuou como câmera no filme, “Kátia dava direção na hora em que estávamos sem direção”. “Esperávamos que ela fosse extremamente rigorosa, mas teve muita sensibilidade em ver que as pessoas que estavam lá ainda não eram profissionais”, afirma. Outros profissionais convidados foram Leandro Afro e Júlio César Siqueira, que colaboraram, respectivamente, com a produção e a direção de fotografia do filme.
Ainda assim, houve dificuldades para a realização de “Feliz Páscoa”. Uma delas foi encontrar um apartamento típico de classe média alta disponível. Primeiro, houve a possibilidade de usarem um na Tijuca, mas ele era muito pequeno. Depois, surgiu outro, no Jardim Botânico, considerado perfeito, mas com obras previstas. Como o tempo era curto, a solução foi voltar ao apartamento da Tijuca, o que provocou mudanças na decupagem de fotografia, no posicionamento das câmeras e no roteiro, sobretudo na cena final. “As últimas filmagens seriam num plano-seqüência, mas tivemos que repensá-las e refazer a parte final do roteiro”, explica o diretor. De toda forma, ele acredita que tenha dado tudo certo. “Os problemas são naturais, ocorrem em todo set de filmagem.”
Para os participantes da Produtora-Escola, “Feliz Páscoa” foi um divisor de águas. Eles aprenderam na prática a importância de saber improvisar, de agir num tempo curto e, principalmente, de ter foco. “Os outros filmes [do Cinema Nosso] fazemos com os materiais da casa, num tempo de aula, mas neste foi tudo num tempo curto. Isto que foi novo para nós: trabalhar com profissionais convidados, equipamentos alugados, cumprir orçamento e cronograma. Aprendemos a superar todas estas dificuldades”, diz André. O câmera Diogo também se mostrou satisfeito com os resultados: “Foram três dias de gravação, em que pude observar uma evolução impressionante. No domingo [1º dia de filmagem], dava vontade de chorar ao ver as imagens. Na terça-feira, os resultados já eram outros”.
O diretor-presidente da Escola Audiovisual Cinema Nosso, Luis Carlos Nascimento, acompanhou todo o processo de filmagem e se disse surpreso com o que viu. “Os alunos superaram as minhas expectativas. Conseguiram realizar um excelente trabalho. Apesar da falta de experiência, todos foram extremamente profissionais.” Enquanto “Feliz Páscoa” está em fase de pós-produção, Luis já pensa na repercussão do filme e na chance de tornar visível o trabalho dos alunos: “É um filme que traz uma qualidade técnica mais rebuscada, maior do que a dos que já foram produzidos anteriormente no Cinema Nosso. Os alunos estão num grau mais avançado também. A intenção é colocá-lo nas mostras competitivas dos festivais, como a do Festival de Cinema do Rio”.
O diretor André aposta que a história de uma família habitual pode atrair o interesse dos espectadores: “O filme fala de um tema corriqueiro sob uma perspectiva diferente, que é a de uma criança de uma família de classe média. Não tem a intenção de passar conceitos de certo e errado, mas mostrar as consequências dos atos de uma família perfeita, em que os pais discutem entre si, mimam a filha…”.
Os dois próximos filmes da Produtora-Escola de cinema já estão programados. O primeiro será sobre homossexualidade na adolescência, enquanto o segundo será, provavelmente, sobre hábitos de alimentação.
A Produtora-Escola de cinema de animação também prepara um filme sobre veganismo – filosofia de vida que se baseia na defesa dos direitos dos animais e inclui hábitos de alimentação e consumo – e está finalizando filmes feitos pelo setor de Videografismo do Cinema Nosso. Os participantes são coordenados por Ana Rita Nemer, educadora do Cinema Nosso e animadora do Núcleo de Animação do CTAv, e Stânio Soares, responsável pelo videografismo do Canal Futura.
Segundo o diretor do Cinema Nosso, "A intenção é tornar a Produtora-Escola auto-sustentável, fazendo dos filmes produtos a serem vendidos para a TV, instituições, ou feitos a partir de encomendas externas, entre outros".
